Auto: Crítica


Muito emblemática essa sempre recorrente controvérsia relacionada aos autos de fin de ano aqui em Natal. Dessa vez, já convencida da baixa e pouco articulada representatividade da classe artística, a prefeitura resolveu boicotar a realização do auto, ironicamente exatamente aquele que lhe apontou o dedo na cara em 2009, quando provocaram algumas celeumas durante o evento. E deu certo: mesmo com os ensaios em andamento veio a notícia constrangedora para os atores, bailarinos, dançarinos e demais artistas e técnicos envolvidos com o espetáculo. Qualquer mobilização dos trabalhadores em busca de reparação pelo ocorrido não alcançou até o momento repercussão notável, enquanto a prefeita topou correr o risco e se deu bem. Avaliará para o ano que vem as consequências de todos os seus atos e desonras nas eleições marcadas para menos de 12 meses.

O fato é que dentro de nossa fala deve haver um auto crítico. Até houve, ano passado, com The Baixo de Natal, auto crítico coletivo, apenas simbólico. Como se viu, apesar de todo empenho, sua analogia política se dissipou melancolicamente, não tendo trazido resultados práticos na vida dos seus principais envolvidos. Tanto é que agora a situação até piorou.

Façamos esse ato crítico. Uma auto crítica!
A minha é a de que estamos desconectados dos principais princípios políticos, o que nos deforma os conceitos, empurrando a gente numa ignorância repleta de equívocos, enterrando em valas rasas nossa potência latente. Basta-nos levar em conta o conceito da representatividade, um dos pilares significativos do SNC, que reconhece o diálogo com os fóruns e estimula o surgimento dos conselhos paritários. Com base nessas premissas, estamos apontando para a possibilidade de uma real participatividade das comunidades criativa e produtiva dentro da esfera gestora, discutindo relatórios, analisando processos, debatendo propostas, encaminhando subsídios à gestão de uma política cultural permeada por uma realidade advinda justamente da demanda dos seus agentes.

Ao invés, a desarticulação reinante vem inviabilizando a conquista de novos pontos a favor dos setores artísticos, o que consequentemente desfavorece o implemento de ações com foco no protagonismo e capacidade de crescimento profissional, com repercussões drásticas nas carreiras dos artistas potiguares. Temos necessidade de melhores profissionais, tanto técnico quanto artisticamente. Nossa carência de operadores de som e iluminadores é notória, por exemplos. Isso se aplicando ao universo da música, que pode hoje responder com maior precisão sobre determinados assuntos por já vir há 2 anos embalada num ritmo de organização.

Constituímos uma pequena Rede, a Rede Potiguar de Música, envolvendo artistas, produtores, jornalistas e mais alguns técnicos, e apostamos no coletivo para fortalecer ações em favorecimento de todos. Integram a Rede até momento o Fórum Permanente de Música (FPM/RN), o SindMusi/RN e a recém criada Compor (Cooperativa da Música Potiguar). Esses gestos vem justamente se contrapor a um modelo administrativo que simplesmente acaba de vetar um projeto que criaria um sistema estadual de bandas, pasmem, aprovado pela unanimidade do plenário da ALRN. Que dizer? Estou justamente escrevendo esse artigo enquanto fiquei a par dessa notícia bombástica. Parece coisa de uma época distante, mas não aqui. Aqui não. Aqui ainda é possível que até mesmo o habeas-corpus seja usado como um tratamento para o coração.

Não é difícil que provavelmente a cidade de Natal/RN esteja atravessando uma das suas piores crises históricas, aprofundada pelo descrédito nas suas instituições e representantes, e que isso vem trazendo para o ânimo dos seus habitantes uma rotina fatigante. Ir embora daqui não chega a ser considerada uma hipótese muito artificial assim, às vezes.

Mas temos que assumir nossa falha nesse processo, e também aos que no passado não foram capazes de instituir modos de garantir nossa representatividade através deles. Será o mesmo legado que deixaremos para as futuras gerações caso não sejamos hábeis o suficiente para rompermos com essa ignorância política que tem nos caracterizado culturalmente. Como vemos, temos protagonizado cenas de total apatia aos nossos destinos, alienando nossa cidadania em função de falta de tempo (prioridade) e outras dificuldades menores. Não há quem me convença que você tirar 2 ou 3 horas entre as 720 de um mês para discutir assuntos pertinentes à melhorias no que você faz seja algo impossível. Pode ser que naquele momento sua disposição ou disponibilidade não aponte para aquilo, mas não que isso seja um fator decisivo. E além do mais existem as listas virtuais, que hoje são responsáveis por uma farta interlocução entre fóruns que inclusive se constituem com representantes de gente de todo o país, em diferentes localidades.

Porém, em Natal, até onde eu sei, a realidade é que apenas o segmento da música possui o seu fórum, com sua coordenação escolhida por eleição, atuando numa interação com o fórum nacional de música (FNM), participativamente. E isso é ainda pouco demais para contrastar com a violência ultrajante a que estão nos impondo essas instituições públicas que tem como pauta a arte e cultura, como foi no caso da conferência municipal agora há poucos meses, um pastelão e tanto.

Precisamos nos apropriar dos nossos espaços, usufruir dos direitos que nos estão sendo garantidos constitucionalmente para defender as mudanças que julgamos justas ao bom desempenho de nossos ofícios, sejam artísticos ou de outra qualquer natureza benéfica ao desenvolvimento social de cada um ser de nós.

Tem gente que acha que o conselho municipal de cultura é só o fic.
O Conselho Municipal de Cultura não é só o FIC não, gente.